sábado, 18 de abril de 2020

VICE VERSOS de ALICE RUIZ com comentários de Francisco Souto Neto.


LIVROS COM HISTÓRIAS QUE NÃO ESTÃO NOS LIVROS – Um livro pode conter muito mais do que aquilo que vem escrito no seu conteúdo. O exemplar pode ter histórias pessoais do seu dono, ou conter dedicatórias raras, ou ter sido emprestado e ter ali registradas impressões manuscritas dos leitores, por ter sido impresso há cem ou duzentos anos... e assim por diante. Este blog pretende, pois, contar algumas dessas histórias paralelas a determinados exemplares da minha biblioteca.
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Capa de VICE VERSOS de Alice Ruiz


Comendador Francisco Souto Neto

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VICE VERSOS de ALICE RUIZ


por Francisco Souto Neto

Alice Ruiz quando jovem

Lá pela metade da década de 80, ao voltar para casa, encontrei uma moça muito bonita no portão do prédio onde eu morava na Rua Marechal Hermes. De braços cruzados resignadamente, imóvel, era bela como uma estrela de Hollywood. Cumprimentei-a, abri o portão eletrônico e perguntei-lhe se poderia ajudá-la em alguma coisa. Muito cordial, disse-me que estava ali para visitar uma moradora do prédio, Martha Schlemm, mas aquela sua amiga certamente saíra e ainda não tinha retornado.

O tempo estava um pouco instável e ventava. Fiquei preocupado. Disse à moça que a Martha era minha amiga e morava no apartamento exatamente um andar abaixo do meu. Disse-lhe mais: que eu morava com minha mãe, que estava em casa, e convidei-a a entrar porque assim, ao abrigo do meu apartamento, ela poderia esperar pela chegada da Martha, protegida da provável chuva. Ainda que um pouco reticente, ela aceitou o convite.

Alguns meses antes eu fizera uma fotografia da Martha, numa das visitas que dela recebi. Publico esta foto como homenagem a esta amiga que não vejo há décadas, irmã de dois grandes artistas plásticos: Elizabeth Bastos Dias Titton e Paulo Dias, ambos também meus amigos.

Subimos de elevador, ela sentou-se na sala, apresentei-lhe minha mãe e ali ficamos conversando enquanto a Martha não chegava. E foi assim que conheci Alice Ruiz. Bons tempos em que não existia a violência como hoje a conhecemos, e as pessoas eram mais confiantes e confiáveis.

Alice parecia preocupada, levantou-se, foi à sacada, voltou ao seu lugar. Minha mãe serviu um cafezinho à visita que lhe era desconhecida. Mas Martha Schelmm não se atrasou demais, talvez uns 15 minutos. Como era um andar apenas, Alice desceu pela escada, após agradecer a acolhida.

Alice era casada com o poeta, escritor, tradutor, crítico literário e professor de História e de Redação Paulo Leminski (1944 - 1989). Ele também escreveu letras de músicas de grande influência na MPB. Chegou a fazer parcerias com Caetano Veloso, Moraes Moreira, Gal Costa e Gilberto Gil. Foi um importante tradutor de obras literárias, pois falava seis línguas estrangeiras: inglês, francês, grego, japonês, espanhol e latim. Ainda quando vivo, Leminski já era considerado o mais importante e mais criativo poeta do Paraná.


O casal Paulo Leminski e Alice Ruiz.

Alice Ruiz não lhe ficava atrás: era (e continua sendo) também uma poetisa de extraordinária força e ousadia, haicaista – tal como Leminski –, letrista, compositora, cantora com vários CDs gravados. Igualmente uma pessoa de muita personalidade e notável cultura. Por isso tudo, o casal era muito conhecido e apreciado. Alice publicou mais de 20 livros. Um deles, Vice Versos, foi lançado no fim da década de 80 na Galeria de Arte Banestado, no tempo em que eu era Assessor da Presidência do Banestado e também Assessor para Assuntos de Cultura da mesma instituição.

Era uma noite quente de dezembro. Os lançamentos de livros naquele espaço cultural aconteciam quando ali já estivesse em curso uma exposição de artes plásticas inaugurada dias ou semanas antes. Minha justificativa para o lançamento de livros em uma galeria de arte, era a de que estaríamos fazendo uma ponte entre a pintura e a literatura. Assim, as pessoas ligadas às letras, que iam ao lançamento de livros, desfrutavam de paredes com quadros expostos que eram sempre da maior qualidade.

Naquela noite, lembro-me de que os convidados demoraram um pouco para começar a chegar. Notei que Alice Ruiz estava preocupada, os braços cruzados, e foi algumas vezes até à porta da galeria... mas logo as pessoas foram chegando e fizeram fila para a aquisição do livro e a dedicatória da autora.



O livro Vice Versos de Alice Ruiz, a dedicatória com autógrafo para Francisco Souto Neto e as páginas de abertura .

Infelizmente não tenho as fotografias da noite de autógrafos, todas feitas por Alice Varajão, mas apenas um recorte de jornal com duas fotos. Numa, Alice Ruiz está com Leila Pugnaloni, e na outra entre mim e Sílvio Back.

À esquerda, Alice Ruiz com Leila Pugnaloni. À direita, Alice entre Francisco Souto Neto e Sílvio Back. Devido ao excesso de flash sobre as roupas brancas, Sílvio Back quase não aparece.

Tenho mais alguns livros de Alice Ruiz em minha biblioteca, porém somente mais um que conta com dedicatória e autógrafo, que vou expor abaixo, apenas por curiosidade:




Meus comentários aos versos de Alice Ruiz poderão ser lidos na minha coluna Engenho & Arte de 11 de fevereiro de 1989, que estão no link abaixo da fotografia da referida coluna:



 
Alice Ruiz atualmente, sempre bela em todas as idades.
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ALMANACH HACHETTE 1908 com anotações de Arary Souto (1908-1963).



 LIVROS COM HISTÓRIAS QUE NÃO ESTÃO NOS LIVROS – Um livro pode conter muito mais do que aquilo que vem escrito no seu conteúdo. O exemplar pode ter histórias pessoais do seu dono, ou conter dedicatórias raras, ou ter sido emprestado e ter ali registradas impressões manuscritas dos leitores, por ter sido impresso há cem ou duzentos anos... e assim por diante. Este blog pretende, pois, contar algumas dessas histórias paralelas a determinados exemplares da minha biblioteca.

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ALMANACH HACHETTE 1908


Capa de ALMANACH HACHETTE 1908

Comendador Francisco Souto Neto


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ALMANACH HACHETTE 1908

por Francisco Souto Neto

 
Arary Souto (1908 – 1963)

Meu pai Arary Souto (1908 – 1963) foi jornalista (diretor de redação do Jornal do Paraná entre as décadas de 40 e 50) e radialista (fundador e diretor da Rádio Central do Paraná entre as décadas de 50 e 60). Desde a minha infância lembro-me de que livros, jornais e revistas eram uma constante em minha casa.

Arary Souto quando jovem: um dândi.

Um desses livros é o Almanach Hachette, editado em Paris, o mais importante almanaque mundial do começo do século XX. As bordas das páginas são em ouro. A edição é de 1908, ano de nascimento de meu pai. Lembro-me de que quando eu era pré-adolescente, descobri que esse almanaque continha informações generalizadas sobre todos os países do mundo, com a relação das populações das principais cidades de cada um deles. Eu gostava de comparar as populações das principais cidades daquela época, 1908, com as brasileiras que eram atuais naquela década de 50. Manias de criança...
A maior curiosidade desse exemplar é que nas suas páginas iniciais, que contêm linhas em branco para anotações do leitor, há um depoimento manuscrito do meu pai. Ele deixou ali registradas estas palavras:


 
1908 – Ano do meu nascimento a 18 de abril.
A civilização aqui ainda estava em evolução.
Hoje, dia 25 de julho de 1943, em que a civilização está em seu apogeu, escrevo isto um tanto com satisfação porque a guerra que se iniciou a 1º de setembro de 1939, hoje toma novo aspecto em vista de ter Mussolini renunciado ao cargo de ministro, às 18 horas do dia 25 de julho de 1943.
O nosso sofrimento por causa desta guerra é horrível, porém todos os brasileiros sofrem com uma resignação extraordinária porque nossa causa terá que ser vencida por nós, “aliados”. Nosso emblema é o V que quer dizer Vitória.
Como Encarregado Geral do racionamento em Presidente Venceslau, cargo este que me impôs a guerra, deixo aqui registrada minha satisfação pela nossa vitória que está bem próxima.
Ponta Grossa, 25 de julho de 1943.
Arary Souto.

Exatamente 39 dias após meu pai ter escrito as palavras acima, a 2 de setembro de 1943, eu viria ao mundo. Mas a vitória das forças aliadas ainda demoraria exatos dois anos após meu nascimento. A II Guerra Mundial terminou a 2 de setembro de 1945.

Como disse antes, na década de 50 eu me interessava em saber quais eram as mais importantes cidades do Brasil. Eis a relação no Almanach Hachette, com a grafia exatamente como consta no famoso almanaque francês:

·         Rio de Janeiro....................................811.265 habitantes
·         Sao Paulo..........................................332.000
·         Bahia ou San Salvador......................230.000
·         Recife................................................120.000
·         Para ou Belem...................................100.000
·         Ouro Preto.........................................  59.249
·         Céara [ou Fortaleza].........................  40.902
·         Nictheroy...........................................  35.000
·         Therezina...........................................  31.523
·         São-Luiz.............................................. 32.000
·         Parahyba............................................ 32.000
·         Maceio...............................................  33.000
·         Desterro.............................................  30.687
·         Corityba.............................................. 25.000
·         Goyaz.................................................  17.181
·         Victoria............................................... 16.887
·         Aracaju............................................... 16.336
·         Natal................................................... 13.725

A esse tempo o Hachette registrou as populações maiores cidades do mundo: Berlim: 2.040.148,  Viena: 1.674.957,  Bruxelas: 198.311, Copenhague: 426.540, Madrí: 539.835,  Paris: (estranhamente não é informada), Londres: 4.684.794, Atenas: 111.486, Roma: (população também não informada), Lisboa: 356.009, São Petersburgo:  1.429.090,  Berna: 71.748, Estocolmo: 324.488, Constantinopla [Istanbul]: 1.106.000,  Cairo: 565.187;  Nova York: 4.113.000 (a mais populosa cidade do mundo), Buenos Aires: 1.046.517, La Paz: 78.510, Santiago; 334.538, México: 344.721, Assunção: 60.260, Lima: 130.000, Pequim: 500.000, Tóquio: 1.818.655, Bangkok: 600.000, Sidnei: 518.570.

As seções do almanaque são nada menos do que fascinantes. Por exemplo, as páginas que registram os dirigentes das nações do mundo. Os países de menor importância, como o Brasil, não estão ali nem citados.

Várias páginas mostram os dirigentes dos países mais importantes do mundo. O Brasil não figura ali.

Impressionante são as páginas com as plantas das dezenas de teatros de Paris. Eles mostram o layout interno de cada teatro e até as poltronas numeradas da plateia e dos diversos balcões, para facilitar aos leitores a escolha dos lugares...

O Hachette mostra, em várias páginas, as plantas dos teatros parisienses.

Enfim, um almanaque curiosíssimo com miríades de assuntos abordados. Isso foi há 112 anos – quando meu pai nasceu.

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P.S.
Texto escrito hoje, 18 de abril de 2020, que seria aniversário de meu pai. 112 anos!

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quarta-feira, 15 de abril de 2020

CONTO E POESIA – ASSIM ESCREVEM OS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS DO PARANÁ – Por José Gil de Almeida.

LIVROS COM HISTÓRIAS QUE NÃO ESTÃO NOS LIVROS – Um livro pode conter muito mais do que aquilo que vem escrito no seu conteúdo. O exemplar pode ter histórias pessoais do seu dono, ou conter dedicatórias raras, ou ter sido emprestado e ter ali registradas impressões manuscritas dos leitores, por ter sido impresso há cem ou duzentos anos... e assim por diante. Este blog pretende, pois, contar algumas dessas histórias paralelas a determinados exemplares da minha biblioteca.


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Capa de CONTO & POESIA


 
Comendador Francisco Souto Neto

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CONTO & POESIA
ASSIM ESCREVEM OS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS DO PARANÁ

Autoria: José Gil de Almeida
Comentado por: Francisco Souto Neto



 José Gil de Almeida sendo entrevistado por “Depoimentos para a História”.

Conheci José Gil de Almeida entre as décadas de 70 e 80. Eu era Assessor da diretoria – depois da presidência – do Banco do Estado do Paraná - Banestado, em Curitiba, e Gil funcionário da Gerência Regional do mesmo banco em Maringá. Assim, distante da diretoria do Banco, o jovem Gil começou a ser notado por desenvolver grandes trabalhos naquela região norte do Estado. Ele criou um jornal mensal para a sua Gerência Regional, abordando assuntos diversos, mas com forte tendência às questões culturais. Após algumas edições, todos percebíamos que aquela publicação era superior ao jornal oficial da instituição bancária em Curitiba.

Certa ocasião, José Gil lançou naquele jornal um concurso de poesias para estimular culturalmente os funcionários do Banestado. Eu participei com um poema que foi classificado e publicado. Começava ali o nosso intercâmbio e amizade.

Quando Gil deixou o Banestado, residindo já em Curitiba, fundou um jornal intitulado, muito a propósito, Opção Cultural. A partir daí, com a passagem dos anos, ele foi ampliando sua atuação no jornalismo. Criou quatro “jornais de bairro” denominados Jornal Água Verde, Folha do Batel, Jornal Centro Cívico e Jornal da Rua XV. Dois deles foram vendidos, mas José Gil continua dirigindo e editando o primeiro e o último mencionados.

Devo acrescentar que durante a ditadura militar, Gil participou do Movimento Cineclubista de Maringá, com o objetivo de encontrar acesso a importantes filmes que às vezes tinham sido premiados até em festivais internacionais, mas que a censura brasileira proibia de ser exibidos nos circuitos comerciais de cinema, e que podiam ser vistos somente em universidades, em círculos culturais ou em grupos fechados de desobediência civil às leis retrógradas.

Além disso, José Gil de Almeida escreveu e publicou um número muito grande de livros. Convidou-me a prefaciar alguns deles, um dos quais é o objeto deste artigo. Isto ocorreu no tempo em que José Gil era o assessor parlamentar da deputada Amélia Hruschka e havia sido nomeado presidente do Departamento Cultural da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná. Ele idealizou um concurso de contos e poesias aberto não apenas aos funcionários públicos, mas também aos das empresas de economia mista municipais, estaduais e federais residentes no Paraná, com premiações de uma forma totalmente original: em vez dos habituais prêmios em espécie, José Gil resolveu oferecer obras de arte aos vencedores. A deputada Hruschka e seu assessor entraram em contato com o presidente do Banestado, que era Carlos Antônio de Almeida Ferreira, um homem muito sensível às causas de cultura, que autorizou ao banco a aquisição de obras de arte para serem entregues aos vencedores do concurso.

Os trabalhos de julgamento e classificação foram feitos por uma composição formada por ícones da cultura paranaense: Vasco José Taborda (presidente da Academia Paranaense de Letras), deputado Nereu Massignan, Fernando Kal (coordenador da Feira do Poeta da Fundação Cultural de Curitiba), fotojornalista Alice Varajão, publicitário João Luiz Goebel, Míriam Regina Pinto (diretora do Departamento Cultural da ASALEP) e pelo próprio Gil de Almeida.

Os prêmios foram entregues em solenidade presidida pelo Gil, no “Plenarinho” da Assembleia Legislativa. Na categoria “contos”, o 1º classificado foi João Henrique do Amaral que escolheu uma tela de Everly Giller. O 2º foi o cinéfilo Lélio Guimarães Sotto Maior Júnior, que escolheu uma tela de Maurinho Gomes. Em 3º lugar classificou-se Regina Therezinha Andrade Benítez (esposa do conhecido crítico de arte Aurélio Benítez) que escolheu uma tela de Rubens Faria Gonçalves (artista revelado e premiado em 1983 pelo I SBAI – Salão Banestado de Artistas Inéditos). Na categoria “poesias”, Carla Anete Berwig ficou em 1º lugar, tendo escolhido uma tela de Tadashi Ikoma; em 2º lugar, José Dinalberto de Oliveira, funcionário do Banestado, que optou por uma obra de Antônio Rizzo; em 3º lugar ficou Estela Maria Arruda Munhoz, que ficou com uma tela de Ronald Simon. O trabalho do artista plástico Edilson de Carvalho Viriato (grande prêmio do VI SBAI) e uma escultura de Marcony Mendes, ficaram para o acervo da Assembleia Legislativa.

No ano seguinte, 1990, José Gil de Almeida promoveu o 2º concurso de Conto e Poesia, agora em nível nacional para funcionários públicos, que mais uma vez agitou o cenário cultural. Como consequência do concurso, também editou-se um livro com dez contos e poesias dos funcionários premiados, que receberam obras de Celso Izidoro, Cida Sanches, Everly Giller, Domício Pedroso, Júlio César Vieira, Maria de Lourdes Zanelatto e Rubens Faria Gonçalves. Também aqui Gil convidou-me para prefaciar o livro.

Já transcorreram 30 anos dos eventos acima comentados. E José Gil de Almeida continua forte, com seus jornais sempre muito apreciados, e com saúde bastante para continuar promovendo cultura.



CONCURSO DE 1989

Capa de Conto & Poesia (1989)

Prefácio de Francisco Souto Neto (início)

Prefácio (final).

Resultado final

Contracapa (4ª capa) de José Gil de Almeida



CONCURSO DE 1990

Capa de Conto e Poesia (1990)

Página de abertura

Prefácio de Francisco Souto Neto (início)

Prefácio (final) 

Resultado Oficial para Contos

Resultado Oficial para Poesias

Contracapa (4ª capa) de José Gil de Almeida

Em dezembro de 2019, José Gil de Almeida (à direita) recebido por Rubens Faria Gonçalves e Francisco Souto Neto.

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segunda-feira, 13 de abril de 2020

VIAGEM NO ESPELHO - O livro que ganhei de HELENA KOLODY em sua noite de autógrafos - por F. Souto Neto

LIVROS COM HISTÓRIAS QUE NÃO ESTÃO NOS LIVROS – Um livro pode conter muito mais do que aquilo que vem escrito no seu conteúdo. O exemplar pode ter histórias pessoais do seu dono, ou conter dedicatórias raras, ou ter sido emprestado e ter ali registradas impressões manuscritas dos leitores, por ter sido impresso há cem ou duzentos anos... e assim por diante. Este blog pretende, pois, contar algumas dessas histórias paralelas a determinados exemplares da minha biblioteca.

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VIAGEM NO ESPELHO – o livro que recebi de presente de HELENA KOLODY em sua noite de autógrafos - por Francisco Souto Neto.



 
Capa de VIAGEM NO ESPELHO, de HELENA KOLODY


Comendador Francisco Souto Neto

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VIAGEM NO ESPELHO
Helena Kolody

por Francisco Souto Neto


 
Helena Kolody .


Helena Kolody (1912 – 2004), talvez a mais importante poetisa da História do Paraná, nasceu em Cruz Machado, PR, filha de imigrantes ucranianos que se conheceram no Brasil. A família mudou-se para Três Barras e depois para Rio Negro, onde estudou piano e pintura. Aos 12 anos escreveu seus primeiros versos. Mais uma vez mudou-se a família, agora para Paranaguá, onde publicou seu primeiro poema, A Lágrima, aos 16 anos.

Aos 20 anos, Helena iniciou a carreira de professora do Ensino Médio e inspetora de escola pública. Lecionou no Instituto de Educação de Curitiba por 23 anos. Segundo o que consta em seu livro Viagem no Espelho, ela foi professora da Escola de Professores da cidade de Jacarezinho, onde lecionou por vários anos.

Seu primeiro livro, publicado em 1941, foi Paisagem Interior.

Dona Helena – como eu a chamava – durante algum tempo ficou de certo modo esquecida pelos leitores porque seus livros já publicados eram de antigas edições esgotadas. Se bem me recordo, livros de Helena Kolody não eram encontrados com facilidade e, portanto, as novas gerações já não a conheciam... até que em 1988 ocorreu algo que mudou tudo.

Naquele ano, funcionário de carreira, eu desempenhava duas funções paralelas dentro do Banco do Estado do Paraná: eu era Assessor da Presidência e, ao mesmo tempo, Assessor para Assuntos de Cultura. Carlos Antônio de Almeida Ferreira ocupava a presidência do Conglomerado Financeiro Banestado; ele foi um dos homens mais acessíveis e cultos que conheci naquela esfera de administração.

Trabalhávamos fisicamente distantes um do outro. Dr. Almeida, na presidência que se situava no enorme complexo de diretoria e direção geral no bairro de Santa Cândida. O meu gabinete era no centro da cidade, no 7º andar de um edifício da rua Marechal Deodoro, o mesmo prédio em cujo andar térreo funcionava a Galeria de Arte Banestado. O Dr. Almeida, quando precisava de algo, telefonava-me. E num desses contatos, quando já estávamos usando o espaço da Galeria também para lançamento de livros, o presidente disse-me que ele gostaria de relançar diversos livros de Helena Kolody e perguntou-me o que eu achava da ideia. Eu conhecia pouco da poetisa, mas sabia que se tratava de uma autora de grande sensibilidade, cujos livros tinham feito muito sucesso no passado. E foi assim que editamos o primeiro dos vários livros, Viagem no Espelho. A equipe de marketing do Banco divulgou o evento com maestria, criando uma grande expectativa pelo coquetel da noite de autógrafos e pela importância do acontecimento.

Helena Kolody na noite de autógrafos

Dona Helena era solteira. Nessa ocasião ela estava com 76 anos, a idade que tenho no momento em que escrevo estas linhas. A noite de autógrafos, muito bem preparada, contou com presença da imprensa escrita e televisionada.

A Galeria de Arte Banestado situava-se a uns 10 degraus abaixo do nível da rua, uma espécie de semi-subsolo. Já havia muita gente à espera da poetisa, quando olhei para o alto da escada e vi que chegava Dona Helena. Ela estava sozinha; deve ter tomado um táxi que a levou até lá. Vi que ela ficou meio titubeante ao olhar para baixo e ao ver aquela multidão à sua espera. Notei sua insegurança ao olhar para a escada, apesar do  corrimão.

Eu tinha apenas 45 anos de idade. Imediatamente acorri em auxílio à poetisa, subi depressa os degraus e lhe ofereci o braço para ela apoiar-se. Ela me agradeceu e disse-me que estava insegura porque a escada lhe pareceu muito íngreme. Descemos lentamente quando os presentes começaram a aplaudir. Chegando ao nível da Galeria de Arte, já vinham ao nosso encontro as encarregadas daquele espaço, Verinha e Clarissa, e lá foram as três abrindo caminho na multidão.

Em sua noite de autógrafos, Helena Kolody desce as escadas da Galeria de Arte Banestado apoiando-se no braço de Francisco Souto Neto. Foto de Alice Varajão.

Na intimidade, um tanto de timidez

Ocorreu um fato muito curioso naquela noite. As pessoas aproximavam-se de Dona Helena, tiravam fotografias, diziam-lhe palavras de admiração e carinho. Um rapaz muito bem educado que comprou um exemplar, pediu-lhe um autógrafo e perguntou-lhe: “Posso lhe dar um beijo?”. Constrangida, ela levantou as duas mãos, abanando-as em negativa como que espantada, e respondeu: “Não, não, não, beijo não!”... e afastou-se rapidamente. Aquilo me fez ver que Dona Helena, na verdade, era de certo modo tímida. Esse é um paradoxo que é mais frequente do que se imagina, entre o autor e a sua obra. Creio que os abismos da poetisa às vezes se revelam nos versos, que podem ser tão “alados”, leves e livres, quanto introspectivos e tristes... porém sempre belos. Por exemplo: Debruço-me à beira de mim / e sinto a vertigem do inviolável / guardando o espelho profundo / que dorme no fundo”. E também escreveu ao ver um antigo retrato seu: “Quem é essa que me olha de tão longe, com olhos que foram meus?”.

Helena Kolody fazendo uma dedicatória para Francisco Souto Neto. À direita, ao lado de Souto, estão Lirdi Jorge e Vera Marques. O pitoresco desta fotografia são os olhares desencontrados de todos. Foto de Alice Varajão.

Dedicatória de Helena Kolody para Francisco Souto Neto no livro Viagem no Espelho.

Depois daquela noite de autógrafos, encontrei-me bem poucas vezes com Dona Helena, e nessas ocasiões ela sempre se recordava do lançamento do seu livro, que foi realmente um grande sucesso. Mas cuidei-me de nunca beijá-la. A partir daquele evento, pode-se dizer que Dona Helena renasceu para a poesia, para os haicais e... para a fama que, a partir dali, a impulsionou para sempre, e continua impulsionando, devido à beleza que transparece de seus versos.

Em minha coluna Expressão & Arte de 21.1.1989 (a segunda abaixo) estão as minhas impressões sobre a obra de Helena Kolody. No seguinte link:





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