segunda-feira, 17 de agosto de 2020

HISTÓRIA DA ILHA DO GOVERNADOR, A TIPOGRAFIA EM SÃO PAULO e REVÉRBERO CONSTITUCIONAL FLUMINENSE (1821-1822) - por Cybelle de Ipanema e Marcello de Ipanema (in memoriam)


LIVROS COM HISTÓRIAS QUE NÃO ESTÃO NOS LIVROS – Um livro pode conter muito mais do que aquilo que vem escrito no seu conteúdo. O exemplar pode ter histórias pessoais do seu dono, ou conter dedicatórias raras, ou ter sido emprestado e ter ali registradas impressões manuscritas dos leitores, por ter sido impresso há cem ou duzentos anos... e assim por diante. Este blog pretende, pois, contar algumas dessas histórias paralelas a determinados exemplares da minha biblioteca.

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HISTÓRIA DA ILHA DO GOVERNADOR,
A TIPOGRAFIA EM SÃO PAULO

REVÉRBERO CONSTITUCIONAL FLUMINENSE

por Cybelle de Ipanema e Marcello de Ipanema (in memoriam)

 Cybelle de Ipanema

 
Comendador Francisco Souto Neto

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 HISTÓRIA DA ILHA DO GOVERNADOR,
A TIPOGRAFIA EM SÃO PAULO e REVÉRBERO CONSTITUCIONAL FLUMINENSE (1821-1822)

por Cybelle de Ipanema e Marcello de Ipanema (in memoriam)


Capas de três dos muitos livros de Cybelle de Ipanema.

As fotografias que encimam este artigo, com livros escritos pelos meus primos Marcello de Ipanema (in memoriam) e sua esposa Cybelle de Ipanema, são apenas três dos muitos que ambos escreveram em coautoria ou isoladamente, e que após o falecimento de Marcello, continuaram sendo escritos por Cybelle.

A maneira como conheci esses parentes foi muito curiosa. A história começa quando, na década de 80, visitei o Cemitério do Catumbi, no Rio de Janeiro, com o propósito de visitar os túmulos de meus trisavós, o Visconde e a Viscondessa de Souto, porém encontrei o setor histórico da necrópole imersa num matagal. Fiz uma denúncia à imprensa carioca e o Jornal do Brasil mandou repórteres ao local, que confirmaram e ampliaram minha denúncia, começando por uma reportagem do alto ao pé da página.

 Reportagem do Jornal do Brasil de 7.4.1985, página 20.

Novamente o Jornal do Brasil de 1º.11.1985.

Marcello de Ipanema morava no Rio de Janeiro e era descendente do Visconde de Souto e do Conde de Ipanema. De algum modo ele soube que alguém – eu – também descendente do Visconde de Souto, residia em Curitiba ou no interior do Paraná. Sem ter como se comunicar comigo e mesmo sem saber o meu nome, enviou a seguinte carta ao que era o mais importante jornal da capital do Paraná, a Gazeta do Povo, que foi publicada na edição de 23.2.1989:

Gazeta do Povo de 23.2.1989, seção “Coluna do Leitor”

À procura de pessoas – Minha carta tem por objetivo, através desta coluna, tentar localizar, para fins culturais, as seguintes pessoas: o bisneto do visconde de Souto, ilustre português, que foi o criador da Caixa Econômica Federal em 1861, e que, por informações que tenho, reside em Curitiba ou outro município do Paraná. Descendentes do desembargador paranaense Antonio de Barros Júnior, que editou em Iguaçu, RJ, O Libertador, em 1888, primeiro jornal desta localidade fluminense. Marcello de Ipanema, rua Muapire, 271, Ilha do Governador, CEP 21921, fone 393-7351, Rio de Janeiro, RJ”.

Eu lia referido jornal diariamente, porém não prestava atenção à página “Coluna do Leitor”. Por sorte um amigo, Ennio Marques Ferreira, leu, percebeu que era a mim que alguém procurava, e telefonou-me recomendando-me ler referida coluna. Logo em seguida telefonou-me também minha amiga Marlene Sant’Anna Granville Urban, dizendo-me o mesmo.

E foi assim que me comuniquei com Marcello de Ipanema, que era uma pessoa importante nos círculos culturais do Rio e passamos a manter interessante e rica amizade epistolar.


Marcelo de Ipanema discursando (1924-1993)

“Angra dos Reis no Segundo Reinado”, uma das dezenas de livros e publicações feitas por Marcello de Ipanema em coautoria com sua esposa Cybelle de Ipanema.


Marcello de Ipanema nasceu em Ribeirão Preto, São Paulo, a 13 de abril de 1924, e faleceu no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1993. Bacharel e licenciado em Geografia e História pela Faculdade Nacional de Filosofia da ex-Universidade do Brasil, atual UFRJ. Foi assistente do prof. Roberto Piragibe da Fonseca, em 1952, no curso de Jornalismo da PUC/RJ. Em 1965, nomeado para dirigir a Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico da Guanabara. Foi diretor do IPHAN. Participou das atividades iniciais do Museu da Imagem e do Som da Guanabara. Membro do Conselho Estadual de Cultura do novo Estado do Rio de Janeiro, de 1975 a 1983, sendo seu vice-presidente por eleição. Membro de Academias de Letras e Institutos Históricos. Presidente do de Niterói (1981/1983), cidade a cujo Conselho de Cultura também pertenceu. Eleito sócio efetivo do IHGB, em 29 de setembro de 1965, sendo recebido pelo professor Hélio Viana. Benemérito desde 29 de junho de 1987 e primeiro-secretário, no biênio 1986/1987. Colaborou em jornais e revistas do país, notadamente no Rio de Janeiro e interior fluminense, desde 1945.

Desde o falecimento de Marcello, passei a manter contato amiúde com sua viúva Cybelle de Ipanema, que até 2011 foi presidenta do IHGRJ (Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro) e que ao mesmo tempo continuou na diretoria do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro). Continuo mantendo laços de amizade com ela e sua filha Rogéria de Ipanema.

Tendo sido Marcello um defensor da fauna e da flora, que sempre levantou a voz em prol do ambientalismo, foi inaugurado em 1993 o Parque Marcello de Ipanema, homenageado como um dos importantes ambientalistas do país. Projetado pela arquiteta Vera Lúcia Cardim, as obras de implantação e paisagismo do parque foram inauguradas em 1995. Ocupa estreita faixa das encostas florestadas do Morro de Santa Cruz, entre o Iate Clube Jardim Guanabara e a Praia da Bica, na Ilha do Governador, capital do Rio de Janeiro.

O Parque Marcello de Ipanema.


No dia 9 de março de 1994, Cybelle enviou-me a Carta Mensal nº 32 do Colégio Brasileiro de Genealogia, com as seguintes palavras no frontispício: “Ao primo Francisco Souto Neto, um pensamento de você em Marcello”:

Palavras de Cybelle a mim destinadas, logo após o falecimento de Marcello.

Fui à página assinalada e encontrei sua referência à família Souto, com destaque ao meu nome:



Palavras de Cybelle a mim destinadas, logo após o falecimento de Marcello.

Por duas vezes recebi a visita de Cybelle de Ipanema aqui em Curitiba e continuamos mantendo contato através de cartas e por telefone. Com Rogéria comunico-me por e-mail.

 Em 1999 recebo em Curitiba minha prima Cybelle de Ipanema. Sentada, sua irmã Nice.



Em 2003 recebo mais uma vez Cybelle de Ipanema, desta feita com sua neta Carolina.

 
Francisco Souto Neto (com seu chihuahua Paco Ramirez), Cybelle de Ipanema e Carolina.

Antes de comentar os livros anunciados ao início deste texto, devo lembrar um fato muito importante: quando eu e minha prima Lúcia Helena Souto Martini já tínhamos escrito a biografia Visconde de Souto: Ascensão e “Quebra” no Rio de Janeiro Imperial, mas ainda não encontrado uma editora para publicá-la, Cybelle e sua filha Rogéria sugeriram-nos que tentássemos publicar algum capítulo do livro na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro – IHGRJ. Essas publicações chamam-se “Revistas” pela tradição, porém seu formato é de livro. Cybelle ocupava a presidência do referido Instituto e Rogéria era a 1ª Secretária. Enviamos o capítulo denominado “A Chácara do Souto e seu Jardim Zoológico”, que foi submetido a uma exigente e criteriosa comissão. É sabido que não é fácil publicarem-se textos nas revistas do Instituto Histórico e Geográfico existentes nos Estados federativos, porque as comissões que avaliam os autores são formadas por pessoas muito exigentes, de respeitado nível intelectual. Pois para nossa surpresa, o texto foi aprovado e publicado na R.IHGRJ nº 18, de 2011, cuja capa é da autoria de Rogéria Moreira de Ipanema:

 Capa da R.IHGRJ nº 18 (2011)




4ª capa ou contracapa, com os nomes dos autores participantes.

O texto poderá ser lido no seguinte endereço:


Resolvemos tentar também a publicação de outro capítulo do mesmo livro, então ainda inédito, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e enviamos “Visconde de Souto, Fazenda Bela Vista e Capela Mayrink”. Depois de algum tempo, para nossa alegria, fomos informados de que o nosso texto fora aceito e que seria publicado na R.IHGB, ano 173, nº 455, de abr./jun. 2012. Vale lembrar que, circulando regularmente desde 1839 (portanto, com 181 anos), ainda época do 1º Reinado, é uma das mais longevas e respeitadas publicações do mundo ocidental. Abaixo, a capa da Revista, isto é, do livro:

Capa da R.IHGB, ano 173, nº 455, de abr./jun. 2012.

A cópia fiel do texto publicado poderá ser lida no seguinte endereço:


Mais uma história importante envolvendo a escritora Cybelle de Ipanema: é que ela gostou tanto daquilo que publicamos nas duas revistas do Instituto Histórico e Geográfico, que nos convidou a mim e minha prima e coautora Lúcia Helena Souto Martini para voltarmos ao Rio de Janeiro, com o propósito de proferimos uma palestra na sede do IHGB sobre nosso trisavô Visconde de Souto. Então eu e minha querida prima lá estivemos em 2012. Dentre as pessoas que compareceram ao evento, contamos com a presença de nossa prima Sílvia Grumbach, esposa de José Roberto Ponce Grumbach, que é descendente do Visconde de Souto e do Marquês de Olinda. A palestra foi um sucesso e uma nota foi publicada na edição seguinte da R.IHGB.

Ao longo da nossa palestra, com Lúcia Helena comandando o power point, chegamos ao momento em que contamos que o Visconde de Souto era motivo para que os autores teatrais o incluíssem como personagem em suas peças. Machado de Assis, que conheceu o Visconde e tinha por ele admiração e até uma espécie de fixação, ao final da Cena VI da peça teatral Hoje avental, amanhã luva, dá a seus personagens o diálogo que vou reproduzir abaixo. Então, ao chegarmos lá pela metade de nossa palestra e ao contarmos aos presentes alguns lances literários de Machado com o Visconde, lemos o diálogo, ao mesmo tempo interpretado, Lúcia Helena fazendo Rosinha e eu fazendo Durval:

Durval – Que é isso?
Rosinha – Uma carta da ama a uma sua amiga. “Querida Amélia: o Sr. Durval é um homem interessante, rico, amável, manso como um cordeiro, e submisso como o meu Cupido...”
Durval – A comparação é grotesca na forma, mas exata no fundo. Continua, rapariga.
Rosinha (lendo) – “Acho-lhe contudo alguns defeitos”.
Durval – Defeitos?
Rosinha – “Certas maneiras, certos ridículos, pouco espírito, muito falatório, mas afinal um marido com todas as virtudes necessárias...”
Durval – É demais!
Rosinha – “Quando eu conseguir isso, peço-te que venhas vê-lo como um urso na Chácara do Souto”.
Durval – Um urso!
Rosinha (lendo) – “Esquecia-me de dizer-te que o Sr. Durval usa de cabeleira” (fecha a carta).
Durval – Cabeleira! É uma calúnia! Uma calúnia atroz! (levando a mão ao meio da cabeça, que está calva) Se eu usasse de cabeleira...
Rosinha – Tinha cabelos, é claro.
Durval – (passeando com agitação) Cabeleira! E depois fazer-me seu urso como um marido na Chácara do Souto.
Rosinha (às gargalhadas) – Ah! ah! ah! (vai-se pelo fundo).

E assim, interpretando uma risada, Lúcia Helena terminou a nossa encenação.

Após a palestra, Cybelle convidou-nos para conhecermos os ambientes nobres do tradicionalíssimo Instituto.


Cybelle de Ipanema em seu gabinete de trabalho em companhia da filha Rogéria Moreira de Ipanema. Em 2011, ocasião desta foto, Cybelle era presidenta do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro e diretora 1ª secretária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rogéria era membro do IHGB e diretora do IHGRJ.


Francisco Souto Neto e Lúcia Helena Souto Martini, após terem proferido a palestra, posam com Cybelle de Ipanema.



Francisco Souto Neto, Rogéria Moreira de Ipanema, Cybelle de Ipanema e Lúcia Helena Souto Martini na sala da presidência do IHGB.


Vista da cobertura do prédio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (foto de Francisco Souto Neto).



Vista da cobertura do prédio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (foto de Francisco Souto Neto).

Cybelle

Cybelle é doutora em comunicação pela UFRJ. Disse ela: “Em 1963, quando professora do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, fui convidada pela diretora Maria Amélia Pena, para organizar uma semana de cultura destinada às comemorações do IV centenário do Rio de Janeiro. Além disso, fiquei responsável por fazer um levantamento da cartografia e da bibliografia da Ilha do Governador”. Mais admirável ainda é que Cybelle de Ipanema fez parte da Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil, e esteve no Planalto Central antes mesmo de Juscelino Kubitschek fazer a primeira viagem à região do cerrado onde mandaria erguer Brasília. Cybelle tem dedicado sua vida profissional às pesquisas sobre a construção histórica, política e social da cidade do Rio de Janeiro e de munícipios fluminenses. Ele foi entrevistada pelo Museu da Pessoa, do Rio de Janeiro, e em épocas diferentes também Marcello o foi, bem como sua filha Rogéria que segue os passos de seus pais em produzir cultura.

Não vou me aprofundar nos traços biográficos de Cybelle de Ipanema, porque logo abaixo esses dados poderão ser encontrados em contracapas ou orelhas de livros da sua autoria.

Os livros de Cybelle de Ipanema


 
Três dos inúmeros livros publicados de Cybelle de Ipanema.

 Capa de A Tipografia em São Paulo: Contribuição à História de suas Origens.

Primeira orelha.

 Dedicatória.

 Segunda orelha.

 4ª capa ou contracapa.

Capa de História da Ilha do Governador. 

Abertura e dedicatória.

 
4ª capa ou contracapa.

 O estojo com os três volumes de Revérbero Constitucional Fluminense (1821-1822).

 Os três volumes de Revérbero Constitucional Fluminense (1821-1822) encaixados dentro do estojo.

Fora do estojo, os três volumes que compõem o Revérbero. “Reverbero”, sem o acento agudo, era a nomenclatura originalmente correta no século XIX, tal como indicado na capa e nos tomos da obra, que acertadamente publica  tal como era no original. Estou escrevendo aqui com o acento, por uma liberdade da minha parte, apenas atualizando conforme as normas da ortografia ora vigentes.

 Capa do Revérbero: Texto, Estudo Hemerográfico e Indexação, por Marcello de Ipanema (in memoriam) e Cybelle de Ipanema.

 
Capa do Revérbero: Texto, Estudo Hemerográfico e Indexação, por Marcello de Ipanema (in memoriam) e Cybelle de Ipanema.

Primeira página do Revérbero.

Dedicatória.

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Resolvi incluir mais um livro de Marcello e Cybelle, Catálogo de Periódicos de Niterói, e ainda um de Cybelle, Efemérides Fluminenses, pois gostei muito da sua foto na orelha da obra, com o cabelo natural – uma feliz e bela fotografia.

Catálogo de Periódicos de Niterói, de Marcello e Cybelle.

 Capa de Efemérides Fluminenses.

Orelha do livro com foto de Cybelle e seus traços biográficos.

O saudoso Marcello de Ipanema, sua viúva Cybelle e a filha Rogéria, primos distantes e queridos, e a história de como os conheci e como passaram a fazer parte da minha vida.

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Acabo de escrever este texto no dia 16 de agosto de 2020, em recolhimento social, isto é, em quarentena pela covid-19 há quase 5 meses, com a esperança de que logo tenhamos a vacina que amainará as dores do planeta e nos devolverá à vida quase normal. “Quase”, porque depois do novo coronavírus nada mais será como antigamente.



Francisco Souto Neto em agosto de 2020.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

ASPAS, PARÊNTESES E RETICÊNCIAS e A PRINCESA E EU, de Lourdes Rocha Strozzi. Comentários de Francisco Souto Neto.


LIVROS COM HISTÓRIAS QUE NÃO ESTÃO NOS LIVROS – Um livro pode conter muito mais do que aquilo que vem escrito no seu conteúdo. O exemplar pode ter histórias pessoais do seu dono, ou conter dedicatórias raras, ou ter sido emprestado e ter ali registradas impressões manuscritas dos leitores, por ter sido impresso há cem ou duzentos anos... e assim por diante. Este blog pretende, pois, contar algumas dessas histórias paralelas a determinados exemplares da minha biblioteca.

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Capas de ASPAS, PARÊNTESES E RETICÊNCIAS e A PRINCESA E EU, de Lourdes Rocha Strozzi  



Comendador Francisco Souto Neto

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 ASPAS, PARÊNTESES E RETICÊNCIAS
e
A PRINCESA E EU,
de Lourdes Rocha Strozzi



Lourdes Rocha Strozzi (1922-2005)


As amigas de minha mãe, durante minha infância e adolescência

Lourdes Rocha foi uma figura de importância na minha vida. No período em que, em Ponta Grossa, moramos na Rua Visconde de Nacar – entre 1948 e 1952 – ela foi nossa vizinha. Creio que era recém-casada com Jayme Srozzi e penso, mas não posso afirmar, que durante esse tempo nasceram seus filhos João Bosco e Maria do Carmo. Tornou-se muito amiga de minha mãe. Aliás, era um quarteto de amigas: minha mãe Edith Barbosa Souto, Noemi Carriel (mais tarde Copacheski) que tinha o apelido carinhoso de Mimi, Lia Pinto Hilgenberg e Lourdes Rocha tornada Strozzi pelo casamento. Não sei o porquê, mas nós a chamávamos de Lourdes Rocha, como se o Strozzi do marido fosse recente demais e ainda não tivéssemos assimilado o seu nome de casada.

Mimi à direita. Sentada, sua mãe Dona Maria Rosa Carriel. À esquerda Elaine, filha de Mimi.

 Lia Hilgenberg na entrada da minha casa.

  Lourdes Rocha Strozzi com (se não me engano) a filha Maria do Carmo e a sobrinha Maria da Graça, que fotografei no Clube de Caça e Pesca de Ponta Grossa.

As três amigas de minha mãe residiam, todas elas, na Rua Marechal Deodoro: Lourdes no nº 736 subindo alguns metros da Visconde de Nacar, e Mimi e Lia descendo a Marechal Deodoro, também a alguns metros da nossa rua, Mimi do lado esquerdo no nº 817 e Lia em frente, no nº 816 do lado direito.


Minha casa na Rua Visconde de Nácar, 149. Era maior do que parece: tinha quatro quartos no térreo e mais dois no sótão. Pintura de Ruben Esmanhotto. 

Eu com o gato Juju. À direita, minha casa na Rua Visconde de Nácar. Abaixo, na esquina, casa de Constante e Anastácia Schmidt, pais de Alice Schmidt de Vasconcellos (casada com Orlando de Vasconcellos) e avós de Orlando Schmidt de Vasconcellos, meu afilhado. Atravessando a rua (Marechal Deodoro) está a casa de Alberto Emílio e Ada, pais de Zelândia e Adelaide (sobre os quais há comentários no livro de Lourdes Strozzi), Adalberto, Sílvio, Nei e outros.

Quando elas se reuniam em minha casa para o lanche, eu ficava sempre brincando por perto, porque as suas conversas eram muito envolventes, empolgantes e cheias de cor e luz. Eu espalhava os brinquedos pelo chão, ocupados pelas minhas mãos, porém eu mantinha as minhas “antenas” voltadas para o bate-papo das quatro amigas. Não raro escapavam-lhes palavrões em meio a muito riso, e Lourdes e Mimi eram as mais “desbocadas”. Entretanto, esses “palavrões” jamais eram obscenos ou indecentes. Não iam muito além do singelo “puta la merda”.

As quatro amigas, quando reunidas, formavam o grupo de senhoras mais divertido que vi em toda vida. Eram alegres, riam o tempo todo. Eu, ainda um garotinho, estava sempre perto do quarteto e adorava ouvir as conversações.

Quando minha mãe reunia mais amigas em nossa casa para um lanche, invariavelmente Lourdes Rocha estava presente. Claro que essas reuniões com mais pessoas eram também mais formais. Nas três fotos abaixo, aproximadamente de 1956, na nossa casa da Rua Augusto Ribas, eis mais algumas das amigas que também sempre se faziam presentes. As três fotos abaixo foram feitas no mesmo dia, com intervalo de alguns minutos.


A primeira senhora não me lembro quem era. A segunda é Lourdes Rocha Strozzi, com seus belos e grandes olhos verdes. Não me recordo do nome da terceira, e a quarta é Glacy Hilgenberg Sponholz.




 Glacy Hilgenberg Sponholz, Marlene Pinto Di Piero, Ivete Osternack Pinto e minha mãe Edith Barbosa Souto.



Argentina Vargas de Oliveira, Romilda Lange, minha mãe Edith Barbosa Souto e Graziela Pinto Maia.

Anos depois, do final de 1955 a 1961, quando passamos a residir na Rua Augusto Ribas nº 571, entre a Rua 15 de Novembro e a Marechal Deodoro – do final de 1955 a 1961 – mais uma vez Jayme e Lourdes com os filhos foram nossos vizinhos. Aquele endereço era estratégico para meu pai, porque ele era diretor da Rádio Central do Paraná, que se localizava na mesma Rua Augusto Ribas, uns 100 metros abaixo. Durante esse tempo, Lourdes foi admitida no quadro de funcionários Rádio Central na qualidade de radioatriz. Naquela época, anterior à televisão em Ponta Grossa, o rádio era o mais importante veículo de comunicação de massas, por isso o cargo de meu pai, de diretor de uma rádio, era muito notável sob todos os aspectos. Também ainda não se utilizava a gravação de voz, uma tecnologia então quase desconhecida. Portanto naquele tempo os noticiários e as novelas no rádio eram realizados ao vivo. Desenvolviam-se também pequenas peças radiofônicas, tragédias ou comédias.


A casa onde residimos na Rua Augusto Ribas nº 571. As duas janelas do prédio ao lado esquerdo (depois do poste duplo) eram da antiga Câmara Municipal. Pelo portão do lado direito era a entrada para a residência no 1º andar. Éramos vizinhos dos Ribas, dos Pereira Jorge e depois dos Strozzi. 


O portão da casa. Meus pais, eu e meus irmãos, subimos e descemos esta escada milhares de vezes. Por incrível que pareça, lá no alto tínhamos um quintal grande com jardim, horta, gramado e um galinheiro. 


Nas ocasiões em que eram levadas essas peças radiofônicas, eu e minha mãe íamos à Rádio Central para vermos a atuação de Lourdes Rocha. Os atores ficavam na sala de som, hermética, sentados numa mesa redonda, cada qual com as folhas contendo o texto, com um microfone à frente de cada um. Havia vários radioatores desenvolvendo a história. Quem fazia o papel da “mocinha” de voz jovem e angelical, era uma senhora gorda; o “mocinho” de voz bela e grave, era um homem calvo de meia idade... e assim por diante. Além disso, quando, por exemplo, no texto o “mocinho” corria até à porta, um auxiliar corria no recinto acompanhado por um microfone baixo; quando alguém chegava à porta e batia, alguém da equipe fazia tóc-tóc-tóc sobre a superfície da mesa. Nas ocasiões em que Lourdes notava que nós a observávamos através do vidro, nos momentos em que não tinha que falar na peça, ela se levantava e ia até atrás da cadeira de quem estivesse naquele momento lendo o seu texto, e fazia às suas costas o gesto de “dar manivela” num carro... e eu e minha mãe, e quem mais estivesse conosco, ríamos às gargalhadas.

Na minha adolescência, a vida era uma alegria, uma festa infinita

O que vou relatar neste parágrafo, tem relação com Lourdes Strozzi. Lá pela metade dos anos 50 as colunas sociais movimentavam tanto a futilidade quanto a intelectualidade das “altas rodas” sociais. No Jornal da Manhã, aos domingos, circulava a coluna “Cortina de Seda”, assinada por Fadlo Auak, que por um período contou com a colaboração de alguém que assinava o pseudônimo de Moby Dick. Ibrahim Sued fazia sucesso no Rio, Dino Almeida despontava em Curitiba e Fadlo Auak em Ponta Grossa. Nos outros jornais, destacavam-se cronistas sociais tais como Michel Acras e João Copla.

Anos depois Fadlo Auak resolveu afastar-se da imprensa e cedeu sua famosa coluna para a então desconhecida Belinda. Quando a “Cortina de Seda” passou às mãos dessa misteriosa colunista, mandei a ela uma carta propondo enviar-lhe notas sobre o “high society”, assinando “Mister X”... e Belinda aceitou minha colaboração. Eu mesmo me surpreendi por Belinda ter aceito e me senti muito importante mais ou menos aos 15 anos de idade – ainda um menino! A história de Belinda e Mister X poderá ser lida por quem tiver curiosidade neste endereço:



A coluna social Cortina de Seda, no Jornal da Manhã, assinada por Belinda e também por Mister X (Francisco Souto Neto)

Depois de algum tempo, passado o período da minha participação na “Cortina de Seda”, revelei a meus pais e irmãos que eu era Mister X. Após meus familiares, a primeira pessoa a quem contei a minha identidade secreta foi... à minha vizinha Lourdes Rocha Strozzi. Fui à sua casa, surpreendi-a com minha revelação, e ela retribuiu revelando-me que ela era Moby Dick, antiga colaboradora de Fadlo Auak na mesma “Cortina de Seda”. Nossas vidas cruzavam-se mais uma vez.

As fotografias de Lourdes Strozzi

Em Curitiba, onde resido desde 1977, eu e minha mãe fomos novamente quase vizinhos do casal Strozzi, que morava a uma distância de não mais do que uns 400 metros.

Algumas vezes fui buscá-la com meu carro, mas Lourdes não gostava de entrar em nenhum automóvel. Eu nunca soube o motivo do seu temor, nem lhe perguntei, mas creio que se tratasse, talvez, de algum trauma de infância. Na primeira vez que ela nos visitou em Curitiba, mostrou-se admirada com o portão da garagem do meu prédio, que abri por controle remoto. “A vida moderna é fantástica”, disse-me ela.

Lourdes Rocha Strozzi era membro da Academia de Letras José de Alencar, em Curitiba, onde ocupou a cadeira patronímica nº 40, de Felinto de Almeida, atualmente ocupada pela também minha amiga Tânia Rosa Ferreira Cascaes. Nessa mesma Academia de Letras eu ocupo a cadeira patronímica nº 26, de Emiliano Perneta.

As fotos abaixo são já do tempo em que todos nós passamos a residir em Curitiba.

 Em 1988, quando eu era assessor de diretoria do Banestado (depois assessor da presidência e assessor para assuntos de cultura), criei, com o auxílio de Tadeu Petrin, o SBAI – Salão Banestado de Artistas Inéditos. Jayme e Lourdes Strozzi prestigiaram o acontecimento e compareceram às solenidades inaugurais. Na foto: o casal Janguta e Graziela Maia, o casal Jayme e Lourdes Strozzi, Francisco Souto Neto, Edith Barbosa Souto e Marlene Sant’Anna Granville Urban.



 Uma foto curiosa, de olhares dispersos: Francisco Souto Neto, Edith Barbosa Souto, Lourdes Strozzi, Jayme Strozzi (atrás de Lourdes), Rubens Faria Gonçalves e Marlene Sant’Anna Granville Urban.



Lourdes Strozzi com Francisco Souto Neto e Tadeu Petrin.

 Em 1992, no aniversário de minha mãe: Lourdes Strozzi, Edith Souto e Marlene Sant’Anna Granville Urban.

Em 1993, Francisco Souto Neto recebe Lourdes Strozzi e Ute Frankl. 

 
Em 1993, Francisco Souto Neto recebe o colunista social Michel Acras e Jayme Strozzi.

Os livros de Lourdes Strozzi

Aspas, parênteses e reticências

Em seu primeiro livro, Lourdes Rocha Strozzi coletou histórias da sua própria vida dos tempos de Ponta Grossa, “apimentou-os um pouco” (segundo palavras dela mesma) e relatou-os de forma muito divertida. Lourdes escrevia muito bem e suas personagens quase sempre aparecem com nomes trocados por pseudônimos, para resguardar suas verdadeiras identidades. Gostei muito de sua estreia no mundo dos livros publicados.

 Capa de Aspas, parênteses e reticências.

 Dedicatória de Lourdes Strozzi para Francisco Souto Neto em julho de 1977.

Primeira página. 

 Abertura do livro com oferenda da autora.

 Uma das muitas e divertidas passagens do livro.

A parte final que Lourdes chamou de “Instantâneos de rua”. 

 
O retrato de Lourdes Strozzi na 4ª capa (ou contracapa).

A Princesa e Eu

Muitos anos depois, em 2000, Lourdes Rocha Strozzi lançou o seu segundo livro, A Princesa e Eu. Ela estava com 78 anos. A “princesa” a quem Lourdes se refere no título, é a cidade de Ponta Grossa, que tem o cognome de “Princesa dos Campos”. Comprei o livro no ano seguinte. Após terminar a leitura, visitei-a na Rua Euzébio da Motta nº 669, a apenas quatro quarteirões de onde eu residia. Minha mãe falecera há quatro anos.

 Na capa, Lourdes Rocha aparenta uns 5 ou 6 anos, com o guarda-pó e a lancheira idênticos aos que eu usei no meu jardim da infância, sendo levada pela mão do pai, o Dr. Rocha, conhecido e respeitado médico de Ponta Grossa.


 

Na primeira página, a minha anotação no dia em que comprei o livro.


Comentei com Dona Lourdes que o livro me pareceu interessantíssimo, porque eu conhecia praticamente todas as pessoas às quais ela se referiu em sua narrativa. Assim, descobri a visão pessoal que a autora tinha das mesmas.

O detalhe que não gostei, foi o dela ter usado palavras estranhas em seu texto, quase sempre desconhecidas, e disse-lhe que eu teria preferido encontrar substantivos mais comuns e usuais. Ela me respondeu que “na Academia gostaram, sobremaneira, das palavras eruditas que eu usei”. Seja como for, eu acho que, ordinariamente, o escritor deve sempre usar de mais simplicidade, e que o excesso de palavras “eruditas” faz parecer que o autor está querendo demonstrar sapiência, isto é, que ele conhece “palavras difíceis”.  Durante a leitura, fiz grifos nas palavras estranhas, que mostrei à minha amiga. Abaixo, 7 exemplos dos 15 que com ela comentei:








Mais adiante encontrei referências às “fogueteiras”, como seriam conhecidas as filhas do nosso vizinho Sr. Alberto Emílio – que era pirotécnico – as jovens Zelândia e Adelaide. Mas essa alcunha, entretanto, era considerada pejorativa pela família Emílio. Zelândia, pianista, faleceu muito cedo e Adelaide teve longa vida. Adelaide era a mais bonita e eu a achava parecida com a cantora Linda Baptista. Eu gostava muito da Adelaide que no Natal se vestia de Papai Noel e fazia a festa das crianças da vizinhança.  Eu tinha pavor do Papai Noel, e somente quando me foi revelado que ele era a Adelaide, meu medo se dissipou. Até ao seu falecimento visitei-a muitas vezes na companhia de minha mãe. Ela morava na Rua XV de Novembro, a apenas três quarteirões de onde então residíamos na Rua Augusto Ribas, no começo da década de 60. No fim dos anos 40 e começo dos 50, Adelaide e Zelândia eram provavelmente as moças mais elegantes da cidade. O pai, Sr. Alberto, talvez o mais rico da Princesa dos Campos, era proprietário de uma grande fábrica de fogos, estabelecida num terreno gigantesco, com as dimensões de um parque, na esquina da Rua Visconde de Nácar com a ladeira da Rua Padre Lux. Dona Ada, esposa do Sr. Alberto, contava que tinham mais de cem casas de aluguel. Minha tia Iraty, irmã de meu pai, casou-se com Adalberto, um irmão das moças Adelaide e Zelândia, e Lindamir, prima de minha mãe, casou-se com Sílvio, também irmão das referidas moças. Assim, pode-se dizer que meus pais se aparentaram duplamente com a família Emílio – uma das mais conceituadas da Princesa dos Campos.

 No 1º parágrafo da página 75, Lourdes refere-se a Zelândia e Adelaide.

Mais uma referência a Adelaide. 

Nas páginas 150 e 151 Dona Lourdes faz um longo relato sobre a Adelaide e um seu pretendente. 

No "Jornal da Manhã".

Avançando nas páginas finais...

 
...e já chegando ao final do livro.

Eu gostava muito de Dona Lourdes, e isto é evidente, mas amigos verdadeiros não podem fingir situações. Se por exemplo há algo que eu não goste num filme, numa peça teatral, num livro, sou autêntico e sincero na minha crítica. Lourdes Rocha teve razão no desentendimento havido com a Madre Superiora do colégio, que se chamava Irmã Animata. Algumas freiras eram, sabidamente, exageradamente conservadoras e “ossos duros de roer”. Mas neste caso a autora se referiu à doença da freira muito cruamente. Contudo... quem sou eu para julgar?

 Moby Dick.

Nas páginas 230 e 231, Lourdes publicou um dos sonetos em versos de doze, que na Cortina de Seda ela publicava sob o pseudônimo de Moby Dick... uma preciosidade dos tempos do Jornal da Manhã.

 
Uma vez mais tornamo-nos vizinhos... e assim referiu-se Lourdes Rocha Strozzi, com carinho, à “família de Arary Souto”.

Contracapa ou 4ª capa.

Os comentários que fiz com Lourdes sobre os detalhes do seu livro que não me agradaram, não abalaram nossa amizade... e isto seria impossível, porque eu adorava Lourdes Rocha e toda sua família.

O casal mudou-se mais uma vez de domicílio em Curitiba, agora para um apartamento na Rua Nicolau Maeder, também não muito longe de onde eu residia naquela ocasião. O que eu não imaginava é que apenas quatro anos depois, Lourdes Rocha Strozzi viria a falecer. Jayme sobreviveu a Lourdes por mais 12 anos. Foi-se ele aos 91 anos no dia 17 de fevereiro de 2017.

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Eu, agora prestes a chegar à idade de 77 anos, vivendo um tempo de terror no planeta pela pandemia que, no Brasil, acaba de ultrapassar o devastador número de 100.000 mortes pela covid-19, e mais de três milhões de infectados, enquanto me mantenho já há quase cinco meses em “isolamento social”, reflito sobre meus familiares, parentes e amigos que já partiram. Lourdes Rocha terá sempre um lugar especial em meu coração.

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Francisco Souto Neto em julho de 2020, em meio à triste e terrível pandemia, esperando pela vacina contra a covid-19, que será um bálsamo para os males do mundo.

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POST SCRIPTUM ACRESCENTADO EM 30.01.2022.

Cerca de um ano e meio após ter escrito o artigo acima, agora em 30 de janeiro de 2022, o planeta continua enfrentando a pandemia da Covid-19, neste momento com uma terrível e avassaladora onda de contaminações cujo índice diário supera o pior dos momentos vividos em meados do ano passado.

Mexendo em caixas contendo antigos papéis, encontrei uma correspondência que travei com Lourdes Rocha Strozzi. Esse contato reporta-se a fevereiro de 1960, quando éramos vizinhos e eu coloquei sob sua porta uma carta que assinei com o pseudônimo de Jayme Sinatra, dizendo-lhe que desejava revelar-lhe o segredo da identidade de Mister X que fora coautor na coluna social assinada por Belinda, no Jornal da Manhã de Ponta Grossa.

Escrevi-lhe que a resposta deveria ser dirigida a "Jayme Sinatra", através da Posta Restante da agência do Correio. Depois de alguns dias, procurando na posta restante, a funcionária disse-lhe que havia uma correspondência destinada ao Sr. Jayme Sinatra. Eu, aos 16 anos em fevereiro de 1960, fiquei sem saber como retirar a correspondência que, segunda a funcionária, só poderia ser retirada mediante apresentação de carteira de identidade do destinatário. Na inocência dos meus 16 anos, contei àquela senhora gentil e "boazinha" que Jayme Sinatra não existia, que se tratava de um meu pseudônimo, e relatei-lhe as circunstâncias. Ela acreditou na minha honestidade e entregou-me o envelope. Era um pequeno envelope medindo 6 e meio por 10 centímetros, e o remetente era "M.D.".






Logo depois disso, telefonei a Lourdes Rocha dizendo-lhe que eu, seu vizinho, queria apresentar-lhe um amigo chamado "Jayme Sinatra". Então batia à sua porta e apresentei-me como "Jayme Sinatra", "heterônimo" de Mister X. 

Foi uma tarde de muito riso e confidências. Disse à minha amiga que era eu o misterioso Mister X da coluna Cortina de Seda, e ela, conforme confessara em sua carta, era a também famosa Moby Dick, que fora coautora da mesma Cortina de Seda, no tempo em que a influente coluna era assinada por Fadlo Auak. Lourdes sentia total aversão à sucessora Belinda. Mas a identidade de Belinda era desconhecida por mim. Só depois de muitas décadas descobri, casualmente, quem era a famosa Belinda que mobilizou a alta sociedade de Ponta Grossa em ondas de alegria e ódio. Infelizmente não tive a oportunidade de revelar à minha querida amiga Lourdes Rocha Strozzi a identidade de Belinda, porque Lourdes faleceu antes disso. Pois Belinda, que incrível, era pseudônimo do "também heterônimo" Fadlo Auak, grande amigo de Lourdes. Que imblóglio!

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